sábado, 12 de junho de 2010


Meu Desalento

Ó desalento malino e perverso,
Que faz parecer toda minha vida
Torcer-se na escuridão da frente com o verso
Do corte doloso da cruenta ferida.

Não aguento mais, para quem grito?
Sou apenas um homem ainda moço,
Onde estou que não me escuto e agito?
Quem me escutará no fundo desse poço?

Meu grito é triste, é mudo e profuso,
Não obedece a própria boca que o quer calar,
Grita em mim, mesmo calado e confuso
Na idéia fixa sempre a me acossar.

Quero ir-me embora do país ou pra París,
Esquecer que sou só mais um idiota a esmo.
Esquecer do "eu agora", lembrar dos dias infantis.
Sumir da mira de todos, esquecer até d'eu mesmo.

Ó desalento sólido e cruel,
Tu és dos mais conhecidos mitos.
Me fez conhecer o brilho do Ouropel
No interior dos engodos mais bonitos.

Eu estou agora decaindo
Na profunda fenda da obcessão,
Onde esfarrapados dedos se ferindo
Escalam rochedos na escuridão.

"Eles" dizem pra eu pedir socorro,
Mas já gritei e niguém me escuta.
Talvez seja preciso fingir que morro
Pra finalmente chegar ajuda?

$Eles$ merecem a minha ida.
Me odeiam, me cuidam com arrogância,
Acham coerente a minha partida
E os que me gostam me dão irrelevância.

Apenas Deus me percebe, que padeço
Ele que Severo, Se faz parecer Mudo
Porque ainda não paguei um preço
Na minha vida de homem imaturo.

E quando pagar, nem sei. O que mereço?
A solução pro desalento duro?
Ou a alegria de um novo começo?
Enfado! tudo é sempre tão obscuro!

Está na parede o meu violão.
Aquele que ouve minha nota lacrimal
E ébrio bebe minha canção
Em noites sem sono e sem lual.

Oxalá fujas passageiro, ó desalento!
Deixa-me só à mercê da própria sorte,
Quando até de esbórnias eu aguento,
Tu me estupora como a morte!

Mas dia-a-dia ainda me sustento,
Mesmo com rastro sangrento do corte!
Todo dia te exorciso do pensamento.
Mas dia-a-dia estou mais forte!
E já está perto teu perecimento!

Está lançada a sorte!