terça-feira, 18 de agosto de 2009

ESTRELA DA MANHÃ

Ó estrela da manhã
Eu sou o filho do navegador
Que desviou correntes turvas
Nas turbas manhãs da dor
Lembrando de tuas curvas


Ó estrela de manha
Levada manhosa pelos ventos
Que em dor sempre apanha
Inventado novos talentos
Entre a perda e a façanha

Ó estrela do amanhã
Não precisas dizer nada mais
Que de ti já não saiba eu
Pois sou o que lê teus sinais
Perdidos ao céu que percorreu

Estrela de manhã
Da alvorada o brilho passageiro
Que acorda-me na luz de glória
Esqueceu que eu sou o marinheiro
E teus sinais são minha memória?

Vai estrela da manhã
Não teme o dia que te oculta
És minha D’alva, minha Vênus alada
Que evanesce quando o Sol te sepulta
Logo no final da madrugada

Vem estrela da manhã
No obscuro do céu sobre o mar
Pois é na noite que tu fulgura
Quando meu barco desaportar
Me reencontrar na noite futura

Estrela d’amanhã
Astro da alva trilha
Que guia pelo oceano
O meu barco quando brilha
Pelas ondas sem engano

Estrela do meu afã
Vênus, D’alva, Vésper minha
Afrodite, Netzach, Véspero, Ishtar
Ísis Vespertina que caminha
Astro-lampo de Ostara, Morningstar






ps: Para uma estrela que agora brilha distante

A BOSTA

Ó bosta! Que serves para nada
Viajante subterrânea dos túneis viscerais
Nojenta mistura de cor efumada
Que escapa, comprimida pelo cú dos animais!

Ó bosta! Massa vil e estranha
Não pareces do homem se originar
Mas se origina, no íntimo da entranha
Pra a imundícia humana evacuar

O teu odor enxofrado
Me trás grande relutância!
Ó dejeto excretado!
Cheio de repugnância!

Penso vendo a insalubridade
Quando te expulso, compressa e lerda:
“-Como pode ser tão sublime a humanidade...
...E ao mesmo tempo ser cheia de merda?!”

Pra que servirá, tal coisa fedida?
Se teu dono excretor ainda à se limpar,
Nem lembra que tu já foste comida.
Desejando ocultar-te e de ti se livrar!

Amorfa pasta de cores toscas
Dos demônios, a horrenda refeição.
Fragrância preferida de todas as moscas
Servirás ao menos de adubo ao chão?

Mas aqui te darei sentido à parte
Pois se loucos fazem d’arte, bosta
Não posso eu fazer da bosta, arte?
E não me importa quem não gosta!

Ó bosta, ouve tua função e sentido!
Simbolizas imunda, ao tombar insana.
Logo que do ânus tenha caído
A impureza interior da raça humana.

E vendo-a podre, seus vermes infernais
Nojo e pavor aos cagões tragam
Lembre os homens que são só mortais
Pois os anjos e deuses não cagam








sábado, 1 de agosto de 2009

VIOLEIRO NOTURNO

Ó madrugada que jaz em mim
Um poço de desejos da escuridão
Confabulam vaga-lumes no jardim
Enquanto eu afino o violão

Tuas estrelas tão briosas
Observam minha melodia
Do céu noturno tão bonito
Que escuta esta harmonia

Minha viola está bem antiga
Dos dedilhados, arranhões nela
Fazem lembrar de muita cantiga
Que cantei para cada donzela

As estrelas não caem mais
Hoje sei que nunca caíram
Daquele desejo que se faz
O meu os anjos não ouviram

O vento noturno meu som ausculta
Na turba luz da ruela imunda
E na calçada da casa oculta
Jaz minha silhueta vagabunda

Com a viola e as corujas à ruir
O sopro gélido da noite resfria
Tocava música para estrelas ouvir
Enquanto meu sono ainda surgia

O vento é morto, sussurrando
Sinto das memórias um torpor
Quantas melodias criei madrugando
Nesta melhor hora para compor

Qual lendário bardo em triste sina
Há anos eu sigo mesmo ritual
Na quinta rua, bem na esquina
Ouvidos sentem um noturno recital

A coruja vem pousar no meu muro
Gatos insones escutam a esperança
Com seis cordas baixo murmuro
Para não acordar minha vizinhança

Dedos esforçam o minueto soturno
Um som cristalino do menestrel
Qual cigano e violeiro noturno
Eu faço o meu papel

Eu toco incessante a serenata
Meus dedos esforçam com afã
Sozinho na noite no meio do nada
Sentado até 3 horas da manhã.

As vezes tenho vontades d’amanhecer
Trocar o sol pela lua
Dormir quando a estrela nascer
Pra acordar na noite nua

Só quando for noite despertar
E da noite no silêncio escuro
Os acordes das cordas acordar
Pra esquecer de mais um dia duro

Observando as estrelas consteladas
Também Mercúrio, Vênus, Saturno
Marte, a Sírius e lua emparelhadas
Eu sou o Violeiro Noturno.