segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

ODE AO VINHO

Pra lembrar das belezas de Febo,
Enquanto o paladar enólogo experimenta,
Do belo sangue da vide bebo
Como vampiro de garganta sedenta.
.
Drenado fostes de montes viníferos.
Brioso mosto que à sanidade transforma.
Puro como fonte de aquífero,
Traços de rubí em líquida forma.

De maceradas uvas escorres carmesim.
Corado em carvalho de barris, tua prisão.
Libertado para a taça diante de mim.
Vil combustível de breve satisfação.

Dos vinhedos maduros se extrai devaneios,
Que por ti, bêbados morrem sozinhos
Tentando esquecer lembranças e anseios
Com amigos pro tédio e a sede pros vinhos.

Óh, álcool vínico que mata a sede dos bacanais!
Tua mancha rubra em roupas desastradas
Já se fez ver nos carnavais,
Onde amantes boêmios dão gargalhadas.

Por tuas uvas o mosto é conhecido.
E a tua essência forte se apega
Nos barris, por tempo e mêses envelhecido
E à luxúria e excessos nos entrega.

Tuas essências são uvas valorosas:
Cabernet Sauvignon, Riesling, Sirah,
Tannat e Malbec das América, apetitosas,
Sauvignon blanc e Pitot Noir.

Chardonnay e do porto, alentejo
Vítae de tez cruenta e sublime sabor
Carménère suave do víneo desejo
"- Et bon apetit avec merlot."

Vinho de festas, nos saraus desejado.
Tua história remonta reinado e relicários
E os amantes do teu vítae encorpado:
Santos, malditos, pecadores e vigários.

Tua imagem escarlate fomentou seu fascínio,
Como o Nepente Sagrado em cálices verteu
Sovre vis e dignos teu brilho sanguíneo
E até Deus feito homem teu suco bebeu.

O fruto da vindima do vinhal
É o alento de urbígenas vesânicos,
Que perambulam esborniantes tal
Como videntes em transes xamânicos.

Doce na boca, amargo na barriga.
Efêmero alento, insuflador de riso pleno,
Analgésico da lamúria e da fadiga,
Idílio ponche do vasto Holoceno.

O gosto da uva engana a tristeza.
Essa que invade minh'alma com brutalidade,
Mas basta uma garrafa de vinho de mesa
Pra dar-me copos de felicidade.



*Comemorando um ano deste Blog,
deixo um dos melhores poemas q tenho
agradecendo o natal e ao novo ano, período
em que as pessoas fazem algo q nois, enólogos
fazemos sempre, bebemos vinho toda semana.rsrs...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

MANGA-AMOR


O amor é como uma manga,
Brota do coração, do núcleo da flor
Quando verde, resistente e brilhante,
Tem também o seu sabor.
Quando amadurece fica mais doce,
Tem mais cheiro e mais cor.
Se não for devorado e apreciado,
cai e apodrece em dor e odor.



Enterrado, pouco dura e após jaz..
..No obscuro vazio e se desfaz
Pra nova oportunidade enraizar,
Pr'outro manga-amor originar.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O Póstumo Colibri


No limiar da desgraça, agora reinante
O beija-flor mascarado voa sem sentido
As flores do mal encobrem a tristeza
Em campos saudosos relembram o vivido

Luz prateada da última aurora
Nas vestes da deusa evanescente
O céu supremo foge covarde
E o sol hoje não dorme contente

As chagas da terra com penas citilantes
Um horizonte vazio do mistério infinito
Na poesia abstrata de árvores vigilantes
O esqueleto do colibri está florido

domingo, 27 de setembro de 2009

CONFESSO PECADOR

Se Deus me perdoa, nobre

Confesso ser um animal nojento

Estulto, de espírito pobre

Mesmo com mui conhecimento

Confesso de ser grande mentiroso

À outros escondendo meu opróbrio

E de falar a verdade orgulhoso

Quando minto pra mim próprio

Confesso da noite e do dia

De ter vivido a impureza

Ter maltratado a alegria

E noutros fomentado tristeza

Se Deus me perdoa, remissor

Afirmo não merecer perdão

Confesso ser asco pecador

Repulsivo qual escorpião

Ser evocante do orco, ser caído,

Soberbo e infame homem

Enganador, ingrato e atrevido

Que a força das trevas consomem

Ser cavernoso pecador, poluto

Falto de pudor e imoral

Viciado em boemia, prostituto

Notável pervertido sexual

Se Deus me perdoa ainda

Me envergonho de sempre repetir

O pecado, no vício que não finda

Novamente qu'eu torno à cair

Confesso da ambição errada

De coisa que não favorece

E da preguiça exagerada

Quando o labor me carece

Ser criatura bestial e errante

Dos pensamentos sujos que sinto

Surgido da caverna, monstro relutante

De concupiscência faminto.

Se deus me perdoa, totipotente

Peço que lave meus pecados

Me faça mudar completamente

Pra vida dos Bem-aventurados

Me arranque do mal as raízes

Pra eu deixar de ser um fanfarrão

Ou o bêbado das meretrizes

Facundo enganador, charlatão

Me livre da azagaia afiada

Que transpassada injustamente

O coração d'um'alma pertubada

Empalando-me intimamente

Se Deus me perdoa Santo

Que tire de mim "O desalento"

Que me impele para o mau e o pranto

Motivo do meu sofrimento

Ser desgraçado, que pro mal

Influencia as companhias

Pondo no caminho do umbral

Até os que me criam simpatias

Iníquo elemento de estorvo antigo

Cruel de língua, valente em rufiar

Que enganou seu melhor amigo

Traiçoeiro albatroz à voar

Se Deus me perdoa

Cantem ó anjos sua magnanimidade

E levitas não parem à toa

Louvem fiéis em sinceridade

Pois ainda que não merecido

De misericórdia sou alcançado

Sendo iníquo eu e corrompido

Minhas preces ter escutado

Meu Pai,

Excelente

E sagrado também

Me dai

Paz de mente,

Obrigado, Amém






























sexta-feira, 11 de setembro de 2009

ACRÓSTICO E NERVOSO



Sinto
Tanta
Raiva
Envolvendo
Simples
Situações

terça-feira, 1 de setembro de 2009

CHOCOLATE E NICOTINA

Qual a diferença entre chocolate e nicotina?
Os devaneios e lamúrias tem vacina?
São paixões ou são vícios?
Vindos de profundos precipícios?
Eu me apaixonei e viciei..
No doce do beijo e o açucar suguei,
Promíscuo ósculo entremeado em carnavais,
Que silenciosamente enlouquece muito mais,
Pode ser o veneno oriundo da vingança
Sabor de fel, Ouropel, decoe pajé-lança
Extensos rios de melancolia
Que espalham esta alegria
Fazendo os homens acreditarem
Nas mentiras do ego e ficarem
Na mira do inimigo, sem saber
E no futuro imediato desvanecer
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
No remoto futuro imediato
Caliopianas pernas caminham sempre mudando
Tudo aquilo que elas teriam de fato
Nicotina baforada pelo ar se dispersando
Chocolate incessante, enfeitiçando o olfato
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
A paixão é uma parte do amor sem respeito
Que arde irresponsavelmente no peito
Ideológica desventura
Vício é a paixão de orgânica estrutura
Fisiólogico desalento
Pois a paixão é o vício do pensamento
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Não confunda o vício com o amor
Que de ímpeto o coração clama.
Você ama o vício, e no fim só a dor
O vício não te ama !
E torna o seu amor,
Em paixão imersa na lama,
Vertigem frustrante e labor.
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Trate de prever,
O que no fim acontecer vai
O vício trairá você
Pois o amor não trai.



ps.: Este poema é inspirado e dedicado ao meu
amigo e poeta Thallisson Melo em memória de
nossas conversas, paixões, ideologias e ressacas
em comum que destinadamente compartilhamos sempre.






terça-feira, 18 de agosto de 2009

ESTRELA DA MANHÃ

Ó estrela da manhã
Eu sou o filho do navegador
Que desviou correntes turvas
Nas turbas manhãs da dor
Lembrando de tuas curvas


Ó estrela de manha
Levada manhosa pelos ventos
Que em dor sempre apanha
Inventado novos talentos
Entre a perda e a façanha

Ó estrela do amanhã
Não precisas dizer nada mais
Que de ti já não saiba eu
Pois sou o que lê teus sinais
Perdidos ao céu que percorreu

Estrela de manhã
Da alvorada o brilho passageiro
Que acorda-me na luz de glória
Esqueceu que eu sou o marinheiro
E teus sinais são minha memória?

Vai estrela da manhã
Não teme o dia que te oculta
És minha D’alva, minha Vênus alada
Que evanesce quando o Sol te sepulta
Logo no final da madrugada

Vem estrela da manhã
No obscuro do céu sobre o mar
Pois é na noite que tu fulgura
Quando meu barco desaportar
Me reencontrar na noite futura

Estrela d’amanhã
Astro da alva trilha
Que guia pelo oceano
O meu barco quando brilha
Pelas ondas sem engano

Estrela do meu afã
Vênus, D’alva, Vésper minha
Afrodite, Netzach, Véspero, Ishtar
Ísis Vespertina que caminha
Astro-lampo de Ostara, Morningstar






ps: Para uma estrela que agora brilha distante

A BOSTA

Ó bosta! Que serves para nada
Viajante subterrânea dos túneis viscerais
Nojenta mistura de cor efumada
Que escapa, comprimida pelo cú dos animais!

Ó bosta! Massa vil e estranha
Não pareces do homem se originar
Mas se origina, no íntimo da entranha
Pra a imundícia humana evacuar

O teu odor enxofrado
Me trás grande relutância!
Ó dejeto excretado!
Cheio de repugnância!

Penso vendo a insalubridade
Quando te expulso, compressa e lerda:
“-Como pode ser tão sublime a humanidade...
...E ao mesmo tempo ser cheia de merda?!”

Pra que servirá, tal coisa fedida?
Se teu dono excretor ainda à se limpar,
Nem lembra que tu já foste comida.
Desejando ocultar-te e de ti se livrar!

Amorfa pasta de cores toscas
Dos demônios, a horrenda refeição.
Fragrância preferida de todas as moscas
Servirás ao menos de adubo ao chão?

Mas aqui te darei sentido à parte
Pois se loucos fazem d’arte, bosta
Não posso eu fazer da bosta, arte?
E não me importa quem não gosta!

Ó bosta, ouve tua função e sentido!
Simbolizas imunda, ao tombar insana.
Logo que do ânus tenha caído
A impureza interior da raça humana.

E vendo-a podre, seus vermes infernais
Nojo e pavor aos cagões tragam
Lembre os homens que são só mortais
Pois os anjos e deuses não cagam








sábado, 1 de agosto de 2009

VIOLEIRO NOTURNO

Ó madrugada que jaz em mim
Um poço de desejos da escuridão
Confabulam vaga-lumes no jardim
Enquanto eu afino o violão

Tuas estrelas tão briosas
Observam minha melodia
Do céu noturno tão bonito
Que escuta esta harmonia

Minha viola está bem antiga
Dos dedilhados, arranhões nela
Fazem lembrar de muita cantiga
Que cantei para cada donzela

As estrelas não caem mais
Hoje sei que nunca caíram
Daquele desejo que se faz
O meu os anjos não ouviram

O vento noturno meu som ausculta
Na turba luz da ruela imunda
E na calçada da casa oculta
Jaz minha silhueta vagabunda

Com a viola e as corujas à ruir
O sopro gélido da noite resfria
Tocava música para estrelas ouvir
Enquanto meu sono ainda surgia

O vento é morto, sussurrando
Sinto das memórias um torpor
Quantas melodias criei madrugando
Nesta melhor hora para compor

Qual lendário bardo em triste sina
Há anos eu sigo mesmo ritual
Na quinta rua, bem na esquina
Ouvidos sentem um noturno recital

A coruja vem pousar no meu muro
Gatos insones escutam a esperança
Com seis cordas baixo murmuro
Para não acordar minha vizinhança

Dedos esforçam o minueto soturno
Um som cristalino do menestrel
Qual cigano e violeiro noturno
Eu faço o meu papel

Eu toco incessante a serenata
Meus dedos esforçam com afã
Sozinho na noite no meio do nada
Sentado até 3 horas da manhã.

As vezes tenho vontades d’amanhecer
Trocar o sol pela lua
Dormir quando a estrela nascer
Pra acordar na noite nua

Só quando for noite despertar
E da noite no silêncio escuro
Os acordes das cordas acordar
Pra esquecer de mais um dia duro

Observando as estrelas consteladas
Também Mercúrio, Vênus, Saturno
Marte, a Sírius e lua emparelhadas
Eu sou o Violeiro Noturno.



segunda-feira, 27 de julho de 2009

POEMA SEM SENTIDO

Ó poema feito às presas sem pensar
Por um moço bêbado e afligido
De fantasias a procurar

Bocas loucas que falam intermitentes
Às molezas, festas, da agonia fremem
Na pobreza de suas mentes

O caminho ainda é tão vasto à frente.
Do pó que eu traguei só vai
Me lembrar a rubra semente

O que eu quero eu já não quis
Corpos em profundo coito onírico
Misturam-se e pedem bis

Meu dinheiro se desmancha pelas noites
Os meus pés estão doendo
E o meu corpo como em açoites

Veja só até onde foi o menino
Que só queria ser especial
Mendigo por um desatino

Será que tudo precisa de sentido
Se cada um sempre muda e
Interpreta o preferido

De repente este poema você lê
E não sabe o que significa
Mas tem sua forma de ver

Então se conforme como pode ver
Pois seu estilo de enxergar
Faz a sorte e o azar acontecer

Um poema sem sentido se alteia
Com o deus do vinho ainda
Fluindo pela minha veia

O vinho e o sangue se acham no meu rosto
Da noite passada, na boca sedenta
O beijo sujo de mosto

Palavras vazias nas areias da estrada
A sombra do amor se enxergou
E a luz do foco ela navegou

Mas um raro amigo doce que parte
Deixa um vácuo com o motivo
Que o meu coração se reparte

Um poema sem sentido ao leitor
Quando este se depara diante
De tantos sentidos do autor

Sem a rima ou regra preferida
Como a vida sem regra, sem previsão,
Nos assusta com sua corrida

O talento não é mais que um desalento
Deixado pelo sobejo de deuses
No homem, o seu vil experimento

Ó vida que chora e sorri insana
Trás pra mim um sentido objetivo
Me faz atingir meu nirvana

Ainda ébrio enquanto escrevo
Bebendo Hendrix e ouvindo vinho
Esses rabiscos me atrevo

Logo logo essa dúvida acabará
Ressacada física e psicológica
A dor de cabeça virá

Só queria por três dias dormir em sigilo
Esquecer desse tosco Holoceno
E visitar o onírico tranqüilo

Já sou o mesmo do ontem futuro
Deixei o doloso passado de amanhã
E recuperei meu caminho duro

A gratidão, a mais sábia das qualidades
Que ensina ao próprio instrutor
Os raros prêmios das felicidades

Um poema mesmo sem sentido
Parido, cuspido, criado e borrado
Mostra sentido em não ter um sentido
Quando todos ainda sentem um bocado
De expressões com o passado sentido
Das lembranças do sentido intocado

Pois todos sempre sentem um passado
Dando sentido ao que não tinha sentido
Mesmo que não se escreva esse dado

Hoje meu suor é sangue escuro
O cruor de uvas fermentadas
Tragado no raiar do obscuro

Mas quero é beber dos fartos seios,
Farejar o odor desnudo da musa
Que permeia meus secretos anseios

Nesse poema de vontades em vapor
Sem sentido, com cem sentidos
Soltos na minha boca no sabor

De frases loucas, na palavra abrupta
Cem sentidos em cem linhas e sem linha
De pensamento ininterrupta

A chaga de morte que sara meu orgulho
Trás para mim só o sabor do mel, do fel
Do mar de prazeres onde mergulho

E a coruja me ensina na noite voar errante

Num coração que é profundo
Com uma lanterna de Hierofante

Lágrimas servem de tira-gosto na língua
Desandando o sabor do Malbec 2002
Num pranto onde o riso morre à míngua

O sol cresce, meu dia aquece na terra nua
No mar se deita, no horizonte fervente
Roxo por ter levado um soco da lua...


...E o GIRAMUNDO virá finalmente



segunda-feira, 13 de julho de 2009

AMOR PE[r]DIDO


Jovem ainda é minha vida
Um poço já velho de amarguras
Lamuriante sempre é a despedida
Insuportável foi minhas torturas
Ao menos agora posso voar
Não relembro tanto o susto
Ante árduas perdas a me sufocar
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Vestígios de um amor augusto

Ontem e dantes chorei d’olhos lassos
Lamuriando o suplício desse fracasso
Tal fora meu amor ver em alheios braços
Acorrentado à cerviz e o cansaço
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Por Cristo, ó Deus escuta-me
Rogo-te o divino perdão
À nova chance imputa-me
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Mui poluto fui com teu galardão
Isola-me desta dor de guilhão
Meu genuíno amor entrega-me.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

POEMA DE 10 SEGUNDOS

HUM...
1 2
1 2 3
1 2 3 4
1 2 3 4 5
1 2 3 4 5 6
1 2 3 4 5 6 7
1 2 3 4 5 6 7 8
1 2 3 4 5 6 7 8 9
1 2 3 4 5 6 7 8 9
DEZ!

terça-feira, 7 de julho de 2009

José Maria Nascimento e a Morta Lepidóptera


Na urbe via de passos e pisadas
Sob o sol, bela e quase esmagada
Morta rente beira das calçadas
Jaz uma robusta borboleta anilada

Que mirando interrompi meu passeio
Vendo o seu belo azul aveludado
A ponta do pé, toquei por receio
Pensando em guardar seu cadáver ornado

Ladeando a Igreja de São João, vigário
Pensei como teria ela morrido?
Tombato de acima do campanário?
Ou de algum cravo peçonhento bebido?

Breve, tive logo de me apressar.
Pois que de várias tarefas lembrei
E a esta mortuária voadora abandonar
E aprumando o passo a deixei

Sem exulto, nem paz, nem calma
Problemas a resolver demais
Que lembrando torturam-me a alma
Mesmo andando na “Rua da Paz”

Me vem atrás outro transuente
Elegante em cabelos de lã, um nobre senhor
Olhou-me cutucando a lepidóptera decadente
Lembrou-me do brio de meu finado avô

Deteve-se à contemplar a miúda criatura
Apenas admirando, pensei eu
Mas acolheu às mãos com candura
Num gesto mais nobre que o meu

Entretido põe-se a fita-la
Como menino ao ver brinquedo
Ou um deus tentando ressuscita-la
De vislumbre, sem pranto ou medo

Que deverá ser tal caridade?
Pois pior que da borboleta a morte
É o tamanho da minha curiosidade!
Sem tempo de perguntar! Sem sorte!

Perguntarei a ele depois sobre isso...
Seria a borboleta inspiração dum tema?
Mas a resposta, de veras nem preciso...
Lhe escreverei uma carta em corpo de poema.

“- Passando na Rua da Paz
Que fizestes poeta tu?
“- Com as tuas mãos emparelhadas
Cataste a borboleta azul?”

Causa disso lembranças ressuscitou-me
Lembrei d’outra borboleta que havia morrido
Que muito amei e o destino tomou-me
Pensando em um amor perdido

[Escrevo]
Para agradecer de tal belo momento
Evocando-me da cintilância enlutada
Plumas azuis no meu pensamento
Que a vida deve ser valorizada

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Rio Una


Rio una
Belo rio claro de borda verde e serena...
Teu fundo é macio e lençol de segredos
Em tua margem banha índia-morena

Rio Una
Procurei a guerreira amada por aqui
Pelas areias brancas da trilha muda
Tuas florestas abafadas percorri
E teu caminho de torrentes me ajuda
Encontrá-la banhando, eu consegui
Nos véus da Cachoeira do Arruda

Rio Una
À aquela índia única me una
Em uma una emoção,
Eu e ela, no teu leito de escuma
Me una a ela Rio Una.
Quando voltar pra Morros
Minha verdadeira fortuna.

terça-feira, 16 de junho de 2009

A Lembrança


O que é a lembrança?
Essa desgraça independente que atormenta
É antes de tudo uma herança
Da arte em vício ou virtude que se experimenta

Tem serventia pra destruir uma paz que sobra
Quando o pêndulo dum relógio o enamorado sufoca
E reconstruir as ruínas da retidão que lhe cobra
Protegendo o amor-próprio que ainda o toca

A lembrança é uma obra
Dos dias, atividades e de belas aventuras.
Da carne que esforça e manobra
Paliativos para dores menos duras

Ora, ora, caralho de aparelho telefônico!
Fraudulento instrumento de esperanças dedutivas!
Te parto qualquer dia num arremesso supersônico!
Espatifando na parede tuas falsas expectativas!

A lembrança é o murmurar do passado
Que por não ter boca, gera o eco oco
Das imagens dum cérebro admirado
Trazendo remotas vontades num presente mouco

Tu és o escorço das vontades repetidas
E oculta premonição do que já aconteceu
Mãe indômita de nostalgias incontidas
Fomento de tudo que se aprendeu

Aprender te domar é uma tarefa enfada
Por que aprender já é relembrar
E se fracassa esquecer a lembrança evitada
Quando se lembra o que não se deve lembrar

Mas também aflige a alma
Mesmo quando és agradável
Quando o vício de lembrar tira a calma
Querendo viver o pretérito afável

És triste ou alegre, mas és sempre melancólica. (oh Lembrança!)
Lembrança das eras, anos, horas e estações
Sempre sábia, professora gentil ou diabólica
Empirista ressuscitadora de emoções

Incessante tu continuas a me acossar
Flagelando-me saudades oníricas do meu ser
Em desejos insatisfeitos o verdugo a me matar
Até que um dia me torne apenas como você

quinta-feira, 19 de março de 2009

ANTROPOFOBIA ANFIGÚRICA


Por próprios contemporâneos paradigmas e exceções
A pseudoliberdade não aventa o questionar
E no meio de automáticas emoções
Confunde-se a verdade aspirando amar
O que não conhecem os corações
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Essência louca de tormentos inescrutáveis
Entregam-se aos enganos da ideologia utente
Constituindo-se pregadores execráveis
De uma vivência utopicamente presente
Propalando a ilição dos miseráveis
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Nós somos o que desconhecemos
Pois decidimos a imagem conceituar
Esquecendo o interior a que pertencemos
Tornando excêntrico e irregular
Quem só busca as soluções que queremos
O álcool serve apenas para omitir
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Brevemente uma difícil resposta carecida
Depois os idiotas têm que se despedir
E por isso a insatisfação é sentida
Pelo que desejavam realmente seguir
Procurando de forma iludida
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A sociedade por isso hipócrita é
Por dizer que é, sem realmente ser
O que na verdade ter quer
E não tem por não saber
O mistério que lhes é

sábado, 28 de fevereiro de 2009

AGENTE CAÓTICO

Eu sou o compositor
De uma chama idiossincrática
Criticando o pensamento opositor
Da ganância e tranqüilidade
Da sofisma sistemática
Eu sou o repositor
Da destemida ordem assintomática
Que intimida o costume
E a origem
Da fé burocrática
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Se como motivador
Isto for pessoal e mais nada
O pessoal não insere crença
Nesta minha burrice organizada
Eu sou violador
Da hipócrita paciência pragmática
Que inútil escuta
E não entende os horizontes
De uma vivência incoadunada
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Eu sou “O concriador”
Do bêbado pelo vinho e
Do metal pela faca
Amigos, inimigos, comigos
Que somente buscam em mim
Uma ressaca

Egovaporação

Estritamente sócio-dependente
O Homo sapiens se nega e se entrega
Ao alheio das idéias mais próximas
Na paraverdade sempre presente

Quando na verdade, toda verdade
Jaz dentro do próprio questionador
Onde tornan-se jardineiros no labor
Querendo plantar o grão de felicidade

Para o fitar crescendo vicejante
Deixando o vergel jubilando
Mas muitos acabam podando
As flores da vida de forma errante

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A Derrota do guerreiro


Uma espada pode durar pouco; mas o guerreiro precisa durar muito. Por isso não se deixa enganar por sua própria capacidade, e tenta evitar ser apanhado de surpresa. Ele dá a cada coisa o valor que ela merece ter. Muitas vezes, diante de assuntos graves, o demônio sopra
em seu ouvido: “não se preocupe com isto, porque não é sério.” Outras vezes, diante de coisas banais, o demônio lhe diz: “você precisa dedicar toda a sua energia para resolver esta situação.”
O guerreiro não escuta o que o demônio está dizendo.
Ele é o mestre de sua espada. Um guerreiro não anda com quem lhe quer fazer mal. E tampouco
é visto em companhia daqueles que lhe desejam “consolar” por motivo da derrota.
Evita quem só está ao seu lado em caso de derrota. Estes falsos amigos
querem provar que a fraqueza compensa. Sempre trazem más notícias. Sempre tentam destruir a confiança do guerreiro - sob o manto da “solidariedade”. Quando o vêem ferido e triste, desmancham-se em lágrimas, mas no fundo de seus corações, estão contentes porque o guerreiro perdeu uma batalha. Não entendem que isto faz parte do combate. Os verdadeiros companheiros de um guerreiro estão ao seu lado em todos os momentos, nas horas difíceis e nas horas fáceis. Quando o momento do combate se aproxima, o guerreiro está preparado para todas as eventualidades. Analisa cada possibilidade, e pergunta: "seria eu capaz de me vencer???" ”Desta maneira, descobre seus pontos fracos. Neste momento, o adversário se aproxima; traz a bolsa cheia de promessas, tratados, negociações. Tem propostas tentadoras e alternativas fáceis. O guerreiro analisa cada uma das propostas; também procura um acordo, mas sem perder a dignidade e se a perde está camuflando uma estratégia. Se evitar o combate, não o fará porque foi seduzido mas porque achou que esta era a melhor estratégia. Um guerreiro não aceita presentes de seu inimigo, mas respeita aqueles que possuem certos méritos. O guerreiro toma cuidado com as pessoas que acham que podem controlar o mundo, determinar seus próprios passos, e estão certas de conhecer o caminho. Elas estão sempre tão confiantes em sua própria capacidade de decidir, que não percebem a ironia com que o destino escreve a vida de cada um. O guerreiro deve ter sonhos. Seus sonhos o levam adiante. Mas ele jamais comete o erro de pensar que o caminho é fácil e a porta é larga. Sabe que o Universo funciona como funciona a alquimia: "solve et coagule", diziam os mestres.
”Concentra e dispersa Tuas energias, de acordo com a situação.”
Existem momentos de agir, e momentos de aceitar a derrota.
O guerreiro aprende a perder. Nisso, toda derrota sempre será
um novo aprendizado dolorido e ofuscante para a luz de sua alma. Ele não trata a derrota como algo indiferente, usando frases como “bem, isto não era tão importante”, ou ” na verdade, eu não queria mesmo isto”, ele não nega seus desejos à ninguém como os covardes. Aceita a derrota como uma derrota, e não tenta transformá-la em vitória ou experiência esperada. Amarga a dor dos ferimentos, a indiferença dos falsos amigos, a ausência dos verdadeiros e a solidão da perda, Ele está sozinho agora diante de seus problemas, e segura suas vísceras saltantes do terrível ferimento sem ninguem por perto para lhe socorrer. E passa então a batalhar imediatamente outra batalha incesante, contra a própria dor da derrota e a solidão de quem perde um tesouro. E pior sentimento para o guerreiro será este de sentir-se inútil, sentir-se um lixo-vivo, seu orgulho ferido, sentir-se um derrotado...Nestes momentos, diz para si mesmo: ” lutei por algo, e não consegui. Perdi a batalha.” É a única coisa que, como que engolindo um espinho, se vê obrigado a dizer... Esta frase não irá lhe dá forças, só mostrará sua honra e dignidade. Ele sabe que ninguém ganha sempre e nem mesmo os corajosos sempre ganham no final. E mas irônico ainda é a oportunidade que certos guerreiros, mesmo covardes possuem de conquistar batalhas e reconquistar coisas de valor... ...e o guerreiro valente o adimira por isso, por ter feito o que o guerreiro valente não conseguiu fazer, mesmo que o covarde tenha vencido uma batalha relativamente mais fácil que a do valente... ...daí adimite-se que há além da destreza de ambos, o fator sorte...
Mas um apredizado nunca se terminará: o da derrota e de sentir-se derrotado e sem poder fazer nada no meio de uma batalha... ...aprendizado doloroso e sublime: sendo cada uma diferente de outra.. aprender a vencer é bem mais facil do que perder.. ...e tanto quanto saber a hora de desistir, a hora que a espada se parte.. ...porém, para qualquer guerreiro de verdade...
"melhor seria a dor de mil golpes e humilhações obtendo a vitória, do que receber apenas um arranhão e perder a batalha."
Ao contrário de bravos guerreiros que admitindo a derrota, fogem do combate,
para tentarem depois outra batalha contra o mesmo inimigo, mesmo não tendo certeza de que terão uma nova oportunidade, outros mesmos desarmados continuam apoiando os joelhos escoriados com armaduras em farrapos no campo de batalha, só para não morrerem
prostrados diante do inimigos... ...esses que dão a última gota de sangue.
...estes são os maiores guerreiros.
...estes são os que sempre serão lembrados.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Soneto da EquiVocação

Ludibriando meus propósitos errados
Numa pesquisa ideológica em busca
Da resposta brilhante que ofusca
Adio a dor e a dúvida dos dias dados

E dos dados diários, entorpeço-me em estigmas
Omitindo a minha responsabilidade óbvia
De ser responsável pelas minhas próprias
Convicções, na forma disforme de paradigmas

Pré-conceituadamente convencionados.
Pela marionete-sociedade dos globalizados
Sou o “livre-escravo-burocrata-capital”

Vivendo constantemente em árdua batalha
Sob olhar insigne do algoz que não falha
Trazido por este regime neo-liberal.